Historiador elabora proposta para gestão de bens eclesiásticos

18 Outubro 2018
Autor:  

Historiador do CMU elabora proposta para gestão de bens culturais da Igreja Católica

fonte: www.cmu.unicamp.br

Em abril deste ano, o historiador João Paulo Berto, responsável pela área de Processamento Técnico do Centro de Memória - Unicamp (CMU), obteve o título de doutor em História da Arte, após a defesa de sua tese no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/Unicamp), intitulada “História, Gestão e Preservação: os bens culturais eclesiásticos na Diocese de Limeira (SP)”, sob orientação do Prof. Dr. Marcos Tognon.

1ª Oficina de Inventário de Bens Culturais Eclesiásticos da Diocese de Limeira, ministrada por João Paulo Berto, no Espaço Cultural ENGEP (Limeira, 2 jul. 2016).

 

O trabalho culminou na elaboração de uma proposta de política de gestão de bens culturais para a Igreja Católica no Brasil, aplicada inicialmente na Diocese de Limeira, que abrange 104 paróquias e quase paróquias distribuídas em 16 cidades do interior paulista. A tese defendeu a importância do inventário e da criação de museus eclesiásticos no país, visando à formação de uma rede de núcleos museológicos. Trata-se de uma estratégia para a promoção da conscientização dos fiéis e dos membros da Igreja Católica sobre a importância da conservação de seus bens culturais, a fim de manter viva a memória das comunidades.

O modelo de gestão proposto por João Paulo é semelhante aos já existentes em Portugal e na Itália, países onde a Igreja Católica já mantém instâncias responsáveis pela gestão dos bens culturais. Assim, foi proposta uma política para as igrejas brasileiras que abrangesse os métodos aplicados nas instituições europeias, porém levando em conta uma série de especificidades nacionais, como explica Berto na entrevista abaixo. Confira!

 

De forma geral, como você explica a proposta de sua pesquisa de doutorado?

A ideia do projeto foi pensar a salvaguarda dos acervos da Igreja Católica no Brasil, isto é, propor uma metodologia de preservação para que aqueles objetos que hoje são importantes para as comunidades católicas, recontando suas histórias e fortalecendo marcas identitárias, possam estar presentes daqui 20, 30 ou 100 anos. Ainda mais se tratando de bens da Igreja, que possuem uma especificidade muito grande. Uma imagem religiosa, por exemplo, assume um papel específico para a comunidade; já para o pesquisador, revela outros aspectos, como seu valor para a História da Arte e da Técnica. Assim, o foco central da tese foi criar uma metodologia específica que seja capaz de valorizar essas duas realidades distintas, a cultual e a cultural, possibilitando a preservação e a difusão destes raros acervos para outras gerações. Em linhas gerais, defendo a importância do inventário continuado e dos museus eclesiásticos territoriais como instituições de salvaguarda dos bens culturais da Igreja.

 

Por que a escolha da Diocese de Limeira?

Eu sempre desenvolvi grande parte dos meus trabalhos na cidade de Limeira, mais especificamente com o acervo da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, que tem mais de 150 anos, na qual já realizo atividades voluntárias há um bom tempo. Assim, tenho certa familiaridade com os acervos das cidades que fazem parte da circunscrição territorial, o que me permitiu o desenvolvimento de uma proposta de gestão integrada.

 

Assinatura do Decreto de criação do Museu Eclesiástico da Diocese de Limeira por Dom Vilson Dias de Oliveira, na Catedral de Nossa Senhora das Dores (Limeira, 16 set. 2017).

 

E quais tipos de documentos ou bens culturais a sua pesquisa explorou?

A proposta não foi trabalhar com a ideia de arte sacra, e sim com a de bens culturais eclesiásticos. Arte sacra é um conceito muito aplicado no âmbito da Igreja, mas que, na teoria, contempla somente uma série de objetos que são utilizados durante o culto. Mas se pensarmos que tipos de elementos preservam a história do catolicismo, aquilo que está dentro das igrejas nem sempre dá conta de representar os fiéis e a realidade comunitária. Já a proposta de bens culturais eclesiásticos é muito mais ampla, abarcando objetos que às vezes extrapolam o âmbito das igrejas e se aproximam da própria vivência comunitária católica, ou seja, contemplando bens não somente os ligados ao culto, mas também os devocionais e aqueles não criados especificamente para a religião. A pesquisa abrangeu, deste modo, desde cálices até objetos íntimos de padres, como livros, têxteis em geral, objetos do interior de residências, ou seja, um escopo muito mais amplo. Assim, uma questão que deve ser levantada na preservação dos itens é: o que, de fato, ajuda a recontar e a reafirmar a história, as memórias e as identidades de uma determinada comunidade católica? No meu entendimento, a comunidade é parte essencial no reconhecimento da importância, na valorização e na preservação de tais bens, por isso deve haver um processo “de baixo para cima”. É tendo isso em vista que credito aos fiéis leigos parte essencial na proposta de gestão destes acervos culturais.

 

Sua proposta é de que as igrejas fiquem encarregadas de contratar profissionais especializados, ou os próprios membros seriam treinados para ajudar na conservação desses bens culturais?

As duas coisas. Todo trabalho de inventário e de preservação deve estar nas mãos das comunidades, cujos integrantes são os detentores de tudo isso, mesmo os itens sendo propriedades da Igreja. Os padres têm função importante nesse processo de gestão, mas cabe ressaltar que eles são transitórios. Agora, quem fica com a salvaguarda, acaba sendo a comunidade, que é leiga. Sabemos da questão da Igreja não ter condições de manter uma grande equipe para a preservação do acervo, mas a ideia é que existam alguns profissionais capacitados no âmbito das Dioceses, responsáveis por direcionar esses grupos, ministrando oficinas para a comunidade, por exemplo. Ainda assim, devem ser os leigos os responsáveis pelas práticas diárias de inventário, conservação e preservação dos acervos locais.

 

Colaboradores durante atividade de inventário realizada na Igreja Bom Jesus dos Aflitos, em Pirassununga (Foto: Monique Souza/Jornal O Movimento). 

 

Por que não simplesmente transferir esses itens aos museus municipais?

A grande questão está nesse duplo sentido que os objetos da Igreja possuem. Quando um fiel olha para uma escultura religiosa, por exemplo, ele cria uma relação que se pauta pela questão devocional, auxiliando na construção de uma série de outras questões, como a identitária, por exemplo. Já o pesquisador, geralmente, não vai valorizar esse lado religioso da obra, já que vai destacar o aspecto técnico, artístico e/ou cultural. Assim, dependendo para onde vai uma imagem como essa, o elemento cultual, tão importante e que dá sentido primeiro à obra, acaba desaparecendo de acordo com a vertente do museu ou da instituição de preservação. Dessa forma, entender o sentido de um bem cultural da Igreja é reconhecer essa dupla função, essa dupla realidade, e valorizá-la. Por mais que esses bens sejam importantes do ponto de vista da história, também são importantes dentro da Igreja pela questão da evangelização. Essa dimensão é a função pastoral dos museus eclesiásticos: um bem religioso foi criado para uma determinada função e isso não pode se perder, servindo de instrumento de disseminação de uma determinada forma de crença. Um exemplo que posso dar são alguns museus de arte sacra, que separam seus itens simplesmente pela estética, ignorando a vertente de fé que lhes deu origem. E não falo somente pelo catolicismo, me refiro a todas as religiões. Todas elas têm objetos que ajudam a guardar sua memória, que foram produzidos para um determinado culto, para uma determinada cerimônia. Se retirarmos o objeto de seu primeiro contexto, ele perde uma parte muito importante de sua essência. Por isso, julgo que é a própria Igreja que tem que cuidar desses bens, pois ela tem condições de fazer valer essa dupla função, difundindo-a para todos os públicos, especializados ou não. Isso que dizer que o Museu Eclesiástico que proponho em minha pesquisa, embora gerido pela Igreja, não é aquele centralizador com sede única e formato tradicional. A proposta é que ele seja um órgão gestor dos bens culturais eclesiásticos das Dioceses, organizado em núcleos museológicos (“pequenos espaços expositivos”) espalhados pelo território e sediados nas igrejas paroquiais, por exemplo, valorizando sempre os itens em seu contexto primeiro de produção e em íntima relação com os fiéis que lhes dão sentido. Com isso, ele será capaz de valorizar as múltiplas identidades católicas locais que, juntas, constroem a realidade diocesana.

Vista da sala de exposição do Núcleo Museológico da Paróquia São Manoel (Leme).

 

Você contou que seu projeto é pioneiro no Brasil. Há iniciativas parecidas em outros países?

Fora do Brasil sim. Na Itália e em Portugal, já temos um pioneirismo nessa proposta da própria Igreja ser responsável pela preservação de seus bens culturais eclesiásticos. Aqui no Brasil, isso já não acontece. Existem algumas políticas da Igreja, mas o trabalho ainda é fundado dentro da linha colecionista, em que o padre, o bispo ou qualquer figura que exista dentro do território diocesano (ou, até mesmo, fora dele), retira os itens do local de origem e cria museus – esse é o caso do Museu do Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas, por exemplo. A proposta discutida em minha tese, de pensar um museu de território, isto é, um gerenciamento do patrimônio cultural eclesiástico em rede ao longo de um território diocesano, em parceria com as comunidades, é uma coisa realmente nova e ainda sem precedentes no Brasil.

 

E como foi a recepção do bispo e dos demais membros da Diocese de Limeira às suas propostas?

Foi um processo complexo. Por parte do bispo diocesano, Dom Vilson Dias de Oliveira, a recepção foi muito positiva. Em tese, todos os documentos da Igreja orientam que o trabalho de preservação dos bens diocesanos – bens no sentido geral, patrimoniais, objetos, carros, casas, e também os bens de caráter cultural – precisa passar pelas mãos do bispo. Quando apresentei o projeto, Dom Vilson aceitou e direcionou o trabalho para a comissão responsável, que é a Comissão de Bens Culturais da Diocese. A comissão estava meio adormecida, realizando um trabalho muito restrito, sem ações abrangentes. Então, conseguimos reativar dentro desse processo a importância dessa Comissão, de modo que ela passasse a ser responsável direta pela gestão de todas as atividades relacionadas às temáticas do projeto. Quando fomos falar com os padres, já foi um pouco diferente, algo que pode se justificar por um problema na sua própria formação. No seminário, quando fazem os cursos de Teologia e Filosofia, eles não possuem sequer uma disciplina que envolva arte sacra, bens culturais eclesiásticos ou preservação de acervo. Por isso, muitas vezes eles não têm essa noção de preservação, e acham que o que vale a pena conservar é somente o que é muito velho ou que demonstre alguma raridade. Foi muito comum encontrar padres que diziam não ter nada interessante para ser preservado, por possuírem apenas peças novas, quando, na verdade, esse trabalho de manutenção da memória abrange tanto bens de 200 anos, como bens de um ou dois anos – a memória das comunidades é viva e está em constante modificação. O envolvimento da comunidade com o bem independe do tempo. Como o trabalho na Diocese é um pouco lento, acredito que pouco a pouco os padres passarão a dar importância a esses bens. Por isso, começamos também um trabalho de formação no âmbito do Seminário Maior Diocesano, para que os futuros padres tenham outra dimensão a respeito dos bens culturais da Igreja.

 

E como está o andamento do projeto após a defesa da tese?

O inventário de bens culturais eclesiásticos da Diocese de Limeira já está sendo realizado – como é um inventário continuado, ele nunca vai ter fim. Temos uma série de paróquias que já possuem um inventário sendo desenvolvido – ao todo, 12 das mais de 100 paróquias e quase paróquias que compõem a Diocese. É um projeto lento. O Museu Eclesiástico da Diocese de Limeira foi oficialmente inaugurado em setembro de 2017, com dois núcleos museológicos dentro do projeto (um em Leme, na Paróquia São Manoel, e outro na Igreja Boa Morte de Limeira), sendo que outros já estão sendo preparados. Vale ressaltar que minha tese não é um projeto finalizado: a metodologia está finalizada, mas a ideia é que este processo continue por muitos anos, já que, se ele foi interrompido, perde-se substancialmente a memória da comunidade e, por consequência, sua identidade.

 

As duas imagens do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, encontradas na Paróquia de Pirassununga: a primeira, de barro (ca. 1820), e a segunda, de madeira (ca. 1878).

 

Qual o item mais curioso que chegou a ser catalogado?

Não sei se é o item mais curioso, mas com certeza tem uma história bem interessante. Quando comecei a realizar o trabalho de levantamento, fui conversar com as pessoas que tomam conta da Paróquia Senhor de Bom Jesus dos Aflitos, em Pirassununga, sobre o que eles tinham de acervo na igreja. E me apontaram alguns armários que possuíam peças raras, livros antigos etc. Entre elas, havia uma imagem que julgavam não ter importância, mas, quando fui verificá-la, tratava-se de uma escultura de barro cozido e policromado, como as produzidas em São Paulo no século XVIII e no início do século XIX. Uma das coisas que me causou certo estranhamento foi que essa escultura já havia sido colada, mostrando que existia um cuidado especial por ela. Então, fui estudar um pouco da história da Paróquia, que foi a primeira igreja da cidade. Conta a tradição que, por volta de 1820, construíram uma pequena capela para a imagem do Bom Jesus – segundo os relatos, uma imagem pequena, de barro e forma simples. Já a imagem que eles possuíam na igreja, de madeira, era tida como a mais antiga do acervo, mas na verdade foi comprada no Rio de Janeiro, por volta de 1878, para substituir a primeira imagem de barro. Então, possivelmente, essa imagem que a comunidade achou que era a menos importante é, na realidade, a primeira imagem daquela capela primitiva. Outro caso que vale mencionar foi de uma carroça no Distrito de Cascalho, em Cordeirópolis, que havia sido usada no transporte da imagem de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da igreja. Mesmo não sendo um item que se pode relacionar a um uso religioso e ritual, a comunidade tem um apreço muito grande pelo objeto, por associá-lo à imagem da santa. A carroça, atualmente, está em frente à igreja matriz e, por ocasião das festas da paróquia, recebe uma série de ornamentos.

 

 

Carroça ornamentada em frente à Paróquia Nossa Senhora da Assunção (Distrito de Cascalho, Cordeirópolis).

 

E como podemos consultar o acervo para conhecer os bens culturais da Diocese?

Hoje temos um portal em que a própria comunidade lança os objetos que são por ela inventariados (acesseclicando aqui). Esse site, na verdade, é um visualizador, que chamamos de ficha de difusão, até para as pessoas entenderem um pouco do que seriam os bens culturais da Diocese – já temos aproximadamente 300 peças cadastradas. Mas estamos desenvolvendo um novo sistema e site, que vai ser um amplo e completo sistema de gestão dos bens culturais diocesanos, previsto para ser lançado em breve. Nele, a ideia é que as pessoas possam não somente navegar pelo patrimônio móvel e integrado, mas também conhecer um pouco do patrimônio imóvel da Diocese de Limeira, passando a reconhecê-lo e preservá-lo.

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  • (19) 3441-5329
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